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A Julieta sem lágrimas de Pedro Almodóvar

Depois do fraco Amantes Passageiros, Julieta, que estreou esta semana nos cinemas, é a volta de Pedro Almodóvar à boa forma. Não vi todos os 20 filmes dirigidos por ele, mas admiro seu estilo, o uso das cores e a forma visceral com que aborda relacionamentos, bem como suas fortes personagens femininas. Julieta traz mais uma dessa galeria de Pedro.

Baseado em três contos de Alice Munro, o filme conta a história dessa mulher desde que conhece seu futuro marido Xoan numa viagem de trem nos anos 80. Neste momento, tudo tem cores fortes, como o futuro de Julieta (repare em seu cabelo, que lembra Melanie Griffith em Dublê de Corpo). Paralelamente, acompanhamos a mesma Julieta, já mais velha, vivendo um momento de mudança, com seu namorado, para Portugal. Só que o encontro com uma pessoa de seu passado a leva a repensar, e principalmente a relembrar sua história e sua relação com a filha Atía. Aqui, tudo se torna cinza e sem vida, refletindo o novo momento dela.

O filme dividiu a crítica, e também fez uma bilheteria menor que a de outros filmes de Pedro. Não é obviamente um filme fácil, afinal as mulheres de Pedro vivem sempre “à beira de um ataque de nervos”. E nesse caso, não há lugar para comédia. O drama é constante. Na verdade, Pedro imaginou que este filme poderia ser sua estreia como diretor num filme falado em inglês e rodado nos Estados Unidos e Canadá. Chegou até a se reunir com Meryl Streep, que já tinha dado o ok para estrelar. Só que a ideia de escrever e filmar em inglês o deixou desconfortável, e ele resolveu trazer tudo de volta para a Espanha. É difícil imaginar este filme sem este jeito de ser latino, sem as grandes emoções, que provavelmente seriam reduzidas numa produção americana.

Ele então optou por colocar duas atrizes diferentes para viver Julieta. A primeira, que faz a Julieta jovem, é Adriana Ugarte, uma atriz lindíssima que eu não conhecia. Tem tudo para fazer uma carreira internacional como Penélope Cruz. A segunda é a veterana e premiada Emma Suarez. As duas tem cenas fortes e momentos “para ganhar prêmio”. Segundo Emma, essa estratégia do diretor de colocar duas atrizes seria uma homenagem a Esse Obscuro objeto do Desejo, de Luis Buñuel. Pedro falou sobre sua decisão em entrevistas, e inclusive sobre o que queria como sensação da atuação de ambas. “Eu já briguei muito com as lágrimas das atrizes, contra essa necessidade física de chorar. É uma batalha muito expressiva. Eu não queria uma certa reserva, mas não queria lágrimas, queria abatimento – aquela coisa que fica dentro de nós por anos e anos de dor. Eu adoro melodrama, é um gênero nobre, grande mesmo, mas era claro para mim que eu não queria uma coisa épica. Simplesmente eu queria um filme seco, sem lágrimas. “

Confesso que não chorei no filme também, mesmo com um drama tão contundente. Mas também admito que o drama dessa mulher e sua dor ficaram na minha mente por dias. Fiquei querendo saber mais, já que o final é aberto, sem grandes explicações. Isso eu considero um grande feito de uma história e de um diretor.

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