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Pela Metade é uma série forte e intensa da HBO Max

Há pouco tempo atrás, Bebê Rena foi um acontecimento. Pessoalmente, achei muito pesada (crítica aqui). Mas ela ganhou vários prêmios, e consagrou Richard Gadd, seu criador e protagonista. E agora ele fez uma nova série, também como criador e ator, Pela Metade, que está na HBO Max. Confesso que depois da experiência de Bebê Rena, não tive a menor vontade de assistir (#mejulguem). Mas meu amigo José Augusto Paulo assistiu, e adorou. Veja a crítica:

Pela Metade

Uma das séries mais discutidas dos últimos anos chegou ao seu sexto e final episodio, com toda a potência que demonstrou desde o começo. Mais um triunfo do escocês Richard Gadd, comediante de stand-up e ator em alguns filmes curta-metragem e series de TV que provavelmente poucos assistiram fora do Reino Unido. Mas, depois de Bebê Rena, se tornou conhecido internacionalmente, não só por uma certa polêmica que a série, em boa parte autobiográfica, gerou, mas também pela sua coragem de relatar coisas que muitos prefeririam evitar mesmo de lembrar que ocorreram.

E nisso está o poder de Gadd como escritor. Levantar temas que a maioria preferia que ficassem escondidos nos porões de sua existência, mas que são essenciais para entendermos como os personagens são, o que os formou psicologicamente e até fisicamente. Pela Metade não é necessariamente fácil de se assistir. Entretanto, para várias das questões que circulam no mundo de hoje, eu diria que é essencial fazê-lo.

A história não é exatamente fácil e corriqueira, mas também não tem uma complexidade elevada. Digamos que pode ocorrer em um lar classe média baixa, em uma área mais popular da sua cidade, e menos afluente. Se passa em duas zonas do tempo específicas. Uma é o período há quatro décadas atrás, quando somos apresentados aos personagens principais e os vemos se desenvolverem por três décadas. A outra é o tempo mais atual, mais precisamente na festa de casamento de um deles.

A história

Niall (Mitchell Robertson, quando jovem, e depois Jamie Bell) vive com sua mãe viúva em uma casa modesta, no oeste da Escócia. Um dia, é informado que Ruben (Stuart Campbell quando jovem, e depois Richard Gadd) o filho da atual parceira de sua mãe, irá se juntar à escola e que os dois virão morar com eles. Niall entra em pânico pois sabe que Ruben tem um histórico de violência e já esteve em algumas instituições. Mas as mães querem viver juntas e assim será.

E isso será o início de uma relação entre os dois ‘irmãos’ (eles repetem algumas vezes que são ‘irmãos filhos de amantes diferentes’) nem sempre fácil, quase sempre tensa. Vemos Niall como sensível, tímido, importunado na escola, e Ruben como alguém que age quase sempre em impulso, e recorre à violência sem nenhum pudor. Já aviso que o segundo episodio tem uns momentos bem violentos, mas não impede de continuar com a série. Por aquele período, a pergunta que sempre parece pairar no ar seria: o que significa ser um homem? Como agir, como homem? Como estabelecer seu ambiente, como tal?

Os anos passam, mas a ligação entre Niall e Ruben persiste apesar de não viverem mais na mesma casa, dos períodos na prisão, dos outros relacionamentos que os dois formam. É uma relação tóxica e de co-dependência. Um parece querer se transformar no outro. Um parece sempre precisar da permissão do outro, mesmo para criar caos com atos perigosos. Um parecia ter um futuro promissor, mas em dado momento é o outro que parece estar em um nível de sucesso. Um tem problemas com sua sexualidade e o outro, problemas de fecundidade.

E no final…

Por vários momentos pensamos que o melhor seria que nunca mais se encontrassem.  Só que nada parece sair como gostaríamos. Nenhum dos dois está pronto para ser sensato, pensar melhor em como agir, pensar, ou mesmo o que dizer. Coloque tudo isso na memória para entender os momentos finais do episódio seis, que gera tanto debate nas redes sociais quanto o final de Lost, se não mais.

O texto é muito bom, sólido, crível, consistente, a atuação sem falhas. Gadd transformou seu corpo para fazer Ruben. Tanto ele como Jamie deixaram Mitchell e Stuart ‘criarem’ os personagens quando jovens e depois adotaram seus trejeitos, forma de falar,  para interpretarem Niall e Ruben adultos. Isso funcionou muito bem. A fotografia com frequência é escura como a trama, e parece girar no vertex do qual os personagens não conseguem escapar pois é de sua própria criação. Intensa, forte, muito bem feita, excelente série.

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