Eu adoro um novelão, e algumas minisséries, especialmente aquelas que não são feitas em Hollywood, adoram ir por esse caminho de #prazercom culpa. Uma delas é A Boneca, produção polonesa de época, com seis episódios, que está na Netflix. O meu amigo José Augusto Paulo já assistiu, e escreveu sobre ela . Veja o texto abaixo:

Crítica de A Boneca
Eram raras as produções polonesas que nos chegavam às telas mesmo depois de 1990. Diversos fatores por um bom tempo limitaram as produções polonesas que chegavam ao exterior . O idioma, aspectos culturais que lhes davam uma imagem de tediosos e tristonhos, e mesmo o pouco financiamento para filmes em um país que estava agora a se deleitar no acesso as produções estrangeiras. Mas com 0 streaming, e com uma diáspora de bom tamanho, mais e mais séries e filmes começaram a aparecer. E é preciso ressaltar que a qualidade na produção destes melhorou muito desde aqueles curtas que se viam há vinte anos atrás.

Mas a Polônia tem uma produção cultural de séculos, especialmente em literatura e música. Infelizmente o país se tornou peão no jogo de xadrez das grandes potências e várias vezes foi ocupado e dividido. Porém, a língua polonesa sobreviveu, e graças a várias obras literárias, chegou aos nossos tempos. Foi justamente durante um período de ocupação por três potências (Alemanha, Rússia e Áustria) na segunda metade do século XIX, que Boleslaw Prus (pseudônimo do jornalista
Aleksander Glowacki, um dos maiores nomes da literatura e filosofia polonesa) escreve seus romances.

A História
Entre eles, A Boneca, que até hoje é leitura obrigatória de alunos das escolas secundárias polonesas. O romance trata da divisão de classes, de uma aristocracia por vezes falida, mas ainda esnobe, da ascensão da classe burguesa e das dificuldades de se quebrarem as barreiras entre essas classes. Tudo enquanto se reflete a ocupação russa que reforça um conservadorismo que beneficia a aristocracia, mas vai contra as mais progressivas ideias da burguesia.

Não é de se espantar talvez o debate que a série, disponível aqui na Netflix, tem gerado, especialmente entre a diáspora. Motivo: distorções no final da estória. Com excelentes atuações, produção caprichada e diálogos que interessam, acompanhamos Izabela Lecka ( sobrenome de difícil pronúncia, como a maioria das palavras polonesas, mas o personagem é muito bem interpretado pela bela Sandra Drzymalska). Ela é a filha de um conde que raramente está sóbrio. O conde vive em busca de esquemas para enriquecer de maneira fácil, já que está mais para falido do que nobre, e a filha tenta solucionar os problemas financeiros da família, enquanto também tenta se expressar como mulher e potencial escritora.

É então que retorna à cidade Stanislaw Wokulski (interpretado pelo internacional Thomaz Schuchardt), que havia deixado a cidade para buscar fortuna nas guerras nos Balcãs e no Mar Negro. Ele volta para reassumir o pequeno negócio que herdou da falecida esposa. Stanislaw retorna rico, mas ainda assim a aristocracia de Varsóvia o esnoba em toda e qualquer oportunidade. Ele se encanta com Izabela, mas esta não tem intenções de se casar, tendo já rejeitado várias propostas de poloneses e estrangeiros. O conde perde ainda mais dinheiro e começa a necessitar da ajuda financeira de Stanislaw e este, quer, como parte do pagamento, a mão de Izabela em casamento. Bem século XIX, bem novela romântica. Só que dali para a frente a história se torna também o desvencilhar de uma trama na qual membros da aristocracia também tentavam falir o conde e se desvencilhar de Izabela e suas ideias modernas.
E no final…
O final da série é surpreendente, bem pensado, e bom. Mas quem leu o livro discorda, pois difere muito do que está nas páginas de Prus. Alguns falam até em boicotar a série tal os sentimentos que gera. Como muitos de nós não lemos e não leremos o livro, sugiro que assista a série. Vale a pena pelo excelente trabalho de todos envolvidos, assim como uma visão curta e rápida, mas significante da Polônia nos anos finais do século XIX.









































