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Cinema

Vamos falar sobre O Oficial e o Espião?

Antes mesmo de estrear por aqui O Oficial e o Espião, que chega aos cinemas nessa quinta, já teve sua grande dose de controvérsias. Isso se deve ao fato de ser dirigido por Roman Polanski, acusado de estuprar uma garota de 13 anos nos anos 70 (mais detalhes sobre o caso no final do texto). Em tempos de #MeToo, o caso de Polanski voltou aos noticiários. Chegou mesmo a ter um protesto durante o prêmio Cesar (o Oscar francês), quando seu nome foi anunciado como o melhor diretor justamente por O Oficial e o Espião. Creio que aqui há dois caminhos a seguir com relação ao filme, dependendo de como você se posiciona. Ou separa o homem de sua obra, ou não. Caso você consiga separar, O Oficial e o Espião é um filmaço que vale ser conhecido.

A história

É uma história real, que se passa em Paris, no final do século 19. O capitão francês Alfred Dreyfus (Louis Garrel, quase irreconhecível) é um dos poucos judeus que faz parte do exército. No dia 22 de dezembro de 1884, seus inimigos alcançam seu objetivo: conseguem fazer com que Dreyfus seja acusado de alta traição. Pelo crime, julgado à portas fechadas, o capitão é sentenciado à prisão perpétua no exílio em uma ilha solitária. Intrigado com a evolução do caso, o investigador Picquart,(Jean Dujardin) decide seguir as pistas para desvendar o mistério por trás da condenação de Dreyfus.

A crítica

O filme é uma superprodução. Há um óbvio cuidado em respeitar os fatos históricos, além de uma cenografia e figurinos perfeitos. O roteiro com suas idas e vindas, esclarece um fato histórico, que eu particularmente não conhecia. Isso apesar de vários filmes já terem sido feitos sobre o tema, sendo o mais recente O Prisioneiro da Honra, de 1991, com Richard Dreyfuss no papel de Picquart. O filme esmiuça os detalhes em suas 2h12, que você não sente passar. Todos vão entender as razoes do acontecimento, e como qualquer instituição de poder, torna-se corrupta desde sempre. O que nos salva são sempre os Picquart’s da vida.

É óbvio o que atraiu Polanski a esse projeto. Adaptado do livro de Robert Harris, o diretor já havia tentado fazê-lo há cerca de 10 anos, mas acabou não saindo. A história fala de pré-julgamento, de todos contra um, da insensatez das grandes certezas. De qualquer maneira, inocente ou culpado, Polanski (que faz uma aparição como ator na cena da festa) é um gênio na direção. E O Oficial e o Espião é um de seus melhores, cinematograficamente falando. O filme foi um enorme sucesso de bilheteria na França, mesmo com todos os protestos de mulheres influentes do país. O que admiro no filme, é que Polanski consegue ser brilhante sem a necessidade de dar mais destaque ao seu trabalho de diretor  do que à história. Coisa difícil de se ver hoje em dia.

A acusação contra Polanski

Para saber mais sobre a história de Polanski, veja abaixo:

Nascido na Polônia, Polanski perdeu a mãe na segunda guerra. Começou a filmar em sua terra Natal. Teve grandes sucessos como diretor, inclusive O Bebê de Rosemary, Chinatown, e O Pianista, que dlhe deu o Oscar de melhor diretor. Mesmo sendo o gênio que é na direção, Polanski hoje é mais lembrado por dois fatos de sua vida pessoal. O primeiro é o assassinato de sua mulher Sharon Tate – que foi relembrado por Quentin Tarantino em Era Uma vez em Hollywood. O segundo é a acusação do estupro de uma menor de 13 anos.

Polanski e Sharon Tate

Samantha Geimer

Em 11 de março de 1977, Polański foi preso na casa de Jack Nicholson, pelo abuso sexual de Samantha Geimer, que tinha somente 13 anos de idade, na altura em que ocorreram os fatos. A garota havia sido modelo de Polanski em um ensaio da revista Vogue. Ele se declarou culpado. Foi preso provisoriamente, na situação “em avaliação”. A princípio a prisão preventiva duraria três meses, entretanto, o cineasta só esteve preso por 47 dias, tendo sido liberado após pagamento de fiança.

Em 1978, o juiz responsável pela causa, após uma reunião com os advogados de Polański, deu a entender que iria ordenar uma nova prisão. Após tomar conhecimento da decisão, Polanski tomou um avião para a Europa. Desde então, não pode entrar em território americano, sob o risco de ser preso. Essa história acabou voltando à tona recentemente devido ao movimento #MeToo, o que vem provocando vários protestos de mulheres, especialmente na França, contra o diretor.

Valentine Monnier

Além disso,  a fotógrafa francesa Valentine Monnier afirmou ter sido agredida e estuprada por Polanski em 1975, na Suíça, quando tinha 18 anos. Valentine disse não ter feito uma denúncia porque o crime estava prescrito. Mas que havia decidido apresentar publicamente esta denúncia devido à estreia do filme O Oficial e o Espião,  porque este faz referência a um erro judicial. Polanski negou a acusação.

Há outras acusações como essa no histórico de Polanski . A ex-atriz alemã Renate Langer diz que ele a estuprou em 1972, quando ela tinha 15 anos. Em 2010 foi a vez da também atriz Charlotte Lewis, que disse que o abuso ocorreu em 1983, quando ela tinha 16 anos. Em 2017, a artista Marianne Barnard disse que o ataque a ela aconteceu quando tinha 10 anos, em 1975. E por último, no mesmo ano, uma mulher identificada somente como Robin, disse que ele a “vitimizou sexualmente” em 1973, quando ela tinha 16 anos.

Charlotte Lewis no filme Piratas, de 1986

Já a primeira vítima, Samantha Geimer, afirmou em 2013, durante a apresentação do seu livro de memórias, The Girl: A Life in the Shadow of Roman Polanski, em Paris, que há “muito tempo” perdoou o cineasta.

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