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Cinema

O passado revisto em Ânsia de Amar

Tenho em mente que o passado existe e não é possível apagar. Sou veementemente contra essa cultura de cancelamento de filmes que temos visto recentemente. No ano passado,  na HBO Max, foi o caso de E o Vento Levou. Este ano, lembro do caso de Grease, um dos filmes mais bobinhos que existem, e que eu amo. Quando foi ao ar na BBC, Grease sofreu cancelamento. O motivo era que propagava  racismo, sexismo, homofobia e de estigmatizar mulheres por suas escolhas sexuais. Não importa que sua história se passe nos anos 50 e tenha sido feito em 1978. Tem que ser cancelado, e apagado da face da Terra como se o comportamento da época nunca tivesse existido. Correndo o risco de ser cancelada também, acho isso irreal. Os costumes existiram, não há como apagar. Pensei nisso enquanto assistia ontem Ânsia de Amar, disponível no Belas Artes a la carte (www.belasartesalacarte.com.br).

Apesar do filme ser de 1971, eu nunca havia assistido. Um daqueles imperdíveis que a gente deixa passar. Dirigido por Mike Nichols com roteiro de Jules Pfeffer, é um dos mais contundentes, crus e agressivos filmes sobre comportamento que já vi. Ele segue a jornada dos costumes e aventuras sexuais de dois amigos de universidade durante duas décadas. Um deles é o misógino Jonathan (Jack Nicholson). O outro é o tímido e neurótico Sandy (Art Garfunkel da dupla Simon & Garfunkel). Os dois encarnam uma lista de disfunções emocionais, enquanto vão de um relacionamento para outro.

A crítica

Como o filme não é tão popular e conhecido hoje em dia, ninguém fala do tratamento das mulheres na história. São destratadas, manipuladas, e só ficam na história enquanto fazem parte da vida dos dois homens. Mas, mais uma vez, era o retrato de uma época. E como retrata bem os relacionamentos, e a forma como os homens viam as mulheres na época. Talvez algumas coisas ainda se mantenham até hoje.

Art Garfunkel me surpreendeu como ator, criando um Sandy dependente da aprovação e das manipulações de Jonathan. E Jack, que  tem aqui um de seus primeiros papéis principais, após uma participação marcante como coadjuvante em Sem Destino. Demonstra aqui todo o talento que lhe renderia três Oscars, uma coisa meio selvagem e inexplicavelmente atraente. Mas, no final quem acaba brilhando mais é Ann Margret.  Ela teve uma indicação ao Oscar e ganhou o Globo de Ouro. A sua Bobbie é a garota sexy que acaba sendo o alvo de todo o abuso de Jonathan. Suas cenas são incômodas e perfeitas. O filme ainda tem participações bem interessantes de Candice Bergen e Rita Moreno.

O formato de Ânsia de Amar é reflexo de sua época, mas o texto e as atuações são eternos. Vale conhecer como um estudo de comportamento e de cinema. É quase um documento histórico.  Ainda bem que muita gente não o descobriu para querer cancelar.

 

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