É interessante como de repente , por puro acidente, encontramos um filme no streaming , que tem tudo a ver com um que vimos recentemente. Foi o que aconteceu comigo enquanto procurava uma opção para assistir ontem à noite na Netflix. Encontrei A Pura Verdade, uma produção de 2018, da qual eu nunca tinha ouvido falar. Dirigido e estrelado por Kenneth Branagh, conta uma história sobre a vida de Shakespeare após sua aposentadoria. Vale ver, especialmente se você viu e gostou de Hamnet (crítica aqui) .

Tudo começa após o desastroso incêndio no teatro The Globe. Shakespeare resolve se aposentar e retorna para Stratford, sua cidade natal. A volta para o ambiente da sua infância conturbada o remete a profundas reflexões sobre as relações familiares estabelecidas ao longo de sua vida. O dramaturgo relembra da morte de seu filho de apenas onze anos, Hamnet, e questiona seus erros e acertos no desempenho do papel de pai e marido em meio ao frenesi do seu sucesso. Há o reencontro com a esposa ( feita por Judi Dench) e com as duas filhas.
O que achei?
Hamnet se passa antes, durante e depois da morte de Hamnet. A pura verdade se passa bem depois, com as irmãs já adultas. Mas sem o glamour e a correria de seu trabalho, é o momento que Shakespeare encontra para enfrentar seus dilemas, suas escolhas, e perceber o quanto isso afetou sua família. Mas o interessante é que o filme não se concentra somente no escritor , mas também descreve uma época em que a mulher não tinha importância alguma. Era quase uma peça de decoração.

Kenneth Branagh é sempre um diretor que sabe explorar a beleza e a profundidade de uma história. Sou fã dele. Aqui não é diferente. Apesar de que, como ator, sua maquiagem de Shakespeare o tornou extremamente parecido com Ben Kingsley, rsrs. Mas o certo é que ele fez aqui um filme com estrutura de teatro, mesmo com várias externas. E belíssimo, com alguns momentos novelescos , um belo texto, que inclui até momentos divertidos e outros surpreendentes num todo dramático e eficiente. Isso sem contar, é claro, o maravilhoso elenco.

O destaque, claro, é Judi Dench, como sua mulher Anne (a Agnes de Hamnet). Acostumada a viver sozinha, ela recebe o marido de volta, e lhe dá “a melhor cama da casa” pois ele é uma visita. Para encarar a vida, Anne constrói seu próprio mundo, mesmo ainda tendo claros sentimentos por Shakespeare. O restante do elenco, as filhas e os genros de Shakespeare também são ótimos, e transmitem a angústia de saber que nunca serão suficientes para o pai. Mas, há um momento sublime que é o encontro de Shakespeare com o conde de Southampton, feito por Ian McKellen. É somente uma sequência, mas o duelo de dois grandes atores é para assistir de joelhos, especialmente quando ambos recitam um poema de maneiras completamente diferentes.

E no final…
A Pura Verdade ainda tem uma revelação chocante ao final, que surpreende, especialmente pela maneira como é apresentada. Repare na fotografia, com Shakespeare entre as duas mulheres. É um poema que vale ser conhecido.










































