Já faz tempo que venho ouvindo falar de Rivalidade Ardente, que estreia nessa sexta na HBO MAX. Se tornou uma loucura nos Estados Unidos. E meu amigo José Augusto Paulo simplesmente amou a série, leu os livros. Enfim entrou na trend, e escreveu um textão super detalhado que eu adorei. Deu vontade de assistir a série.
Rivalidade Ardente
Me lembro de ter ouvido a “série sobre jogadores de hóquei” ser mencionada há alguns meses atrás, como algo que estava causando uma sensação no Canadá desde que os trailers iniciais foram lançados. Mas, esta sensação foi tal que, de repente, não era mais a série que seria lançado em um pequeno canal de streaming e somente no Canadá. Ela também sairi apela HBO Max mundialmente.

Com isso, foi uma avalanche de vídeos, entrevistas, análises, críticas, e milhares e milhares de reproduções de algumas de suas cenas. Isso fez com que a série, de baixo orçamento, e com vários atores pouco conhecidos, se tornasse o fenómeno da temporada. Rivalidade Ardente foi do nada, para a estratosfera. Desde Orgulho e Preconceito, nos anos 90, que eu não escutava tantas pessoas repetindo frases do texto como ‘I am coming to the cottage’ ou ‘I do not want this problema to ever go away’. Um super fenômeno.

O início
A série se baseia nos livros de Rachel Reid (a primeira temporada nos dois primeiros livros de uma série de sete). Ela é uma escritora da Nova Escócia, que se descreve como uma canadense mediana com dois filhos interessantes e que começou a escrever a serie de livros como fanfic para ser lançada na Internet. Em outras palavras: quase um hobby. E ela achou que não seriam adaptáveis. Afinal, a descrição do sexo entre os personagens é bem explicita… e alguns leriam como pornografia embora não o seja. Enfim, parecia ser um livro que ficaria enterrado em algum canto da internet.

Há uma marca nos livros de Rachel Reid: cada um se concentra num par de personagens com muito pouco de outros personagens periféricos. São intensos até neste detalhe. E as versões impressa dos livros esgotaram ao redor do mundo em menos de cinco semanas. Mas eis que Jacob Tierney se encantou com o que leu por acaso, encontrou uma atmosfera mais positiva para filmar a história na integra. Crave topou a parada. Foram 37 dias de filmagem para os seis episódios, seguindo o texto quase literalmente do livro. Com isso, de um mês para outro, Hudson Williams e Connor Storrie ganharam um milhão de seguidores no Instagram. Se tornaram famosos muito além do que poderiam ter imaginado ( eles apresentaram uma categoria no Globo de Ouro, e também carregaram a tocha olímpica na chegada a Milão para os Jogos Olímpicos de Inverno).

A história
E se você ainda conseguiu não ter seu celular invadido pela avalanche que mencionei acima a história é sobre duas estrelas do hóquei no gelo. Um é o introvertido, calmo e bom menino canadense Shane Hollander (Hudson Williams). O outro é o extrovertido, impulsivo bad boy russo Ilya Rozanov (Connor Storrie). Eles se conhecem no início de sua carreira profissional, se tornam rivais intensos no gelo, enquanto por um acaso começam a ter encontros furtivos somente para sexo. Shane fica chocado pelo sua atracão por outro homem. Já Ilya faz mais o estilo “eu topo qualquer parada”. Se no ambiente um tanto homofóbico do hóquei no gelo isso em si já seria perigoso, se torna ainda mais frente à rivalidade que cresce com o sucesso deles no esporte. São anos de encontros clandestinos, espaçados às vezes por meses e meses.
Enquanto Ilya tem vários outros encontros com pessoas de ambos os sexos, Shane tenta lidar com o que está acontecendo com ele. O livro e a serie não o mencionam, mas Shane tem um certo grau de autismo, que Hudson interpreta com maestria. Suas micro-reações, expressões faciais em tempo perfeito. E o olhar transmitem muito da agonia que seus pensamentos enfrentam.
A crítica
Muitos podem pensar que é somente mais uma história das chamadas ‘frenemies’. Para quem não sabe, é im gênero que aparece com sucesso em comédias românticas, na qual inimigos se tornam, com o passar do tempo, mais do que amigos. Mas Rivalidade Ardente é bem mais do que isso: são dois opostos que se atraem além de sua própria compreensão. Se observamos os personagens, não parece que conseguiriam conviver um com o outro. Entretanto, o que observamos também é que a atração inclui aquela oposição.

Um extrovertido, o outro profundamente introvertido, e isso tromba de frente cada vez que se encontram. Eles notam a diferença, pensam no absurdo da situação, de como devem dar fim a tudo já que, por vezes, parece repeli-los, mas somente na superfície. No profundo de cada um deles a diferença se torna algo que eles precisam ter. E está aí a genialidade da história. O que os unia, o hóquei, era também o que deveria separá-los. Uma fórmula que poderia levar a uma amor físico destrutivo, mas na verdade os transforma.

E nesta temporada, em grande parte, está o segundo livro. Só que no terceiro episódio temos um jogador também estrela do hóquei, Scott Hunter (François Arnaud). Este se interessa por Kip, um rapaz que trabalha em uma espécie de lanchonete, que formam o primeiro livro dos sete lançados até agora. Como no caso de Shane e Ilya, também há uma fantasia romântica de peso.

Uma análise social
Mas nessa onda também aparece uma intensa especulação sobre a sexualidade dos quatro atores principais. Uma inutilidade, mas reflexo de uma sociedade que ainda não aprendeu a respeitar a sexualidade alheia, mas que a torna como uma marca acusativa. Como um dos personagens diz, ser um esportista com um enorme talento, mas heterossexual, não diminuiria o foco nos atributos esportivos. Mas a partir do momento que a mesma estrela esportiva se declara bissexual ou homossexual, o foco se torna a sexualidade e não mais o talento. Uma pena.

Vamos além: a série tem sido comentada por inúmeros programas tanto na TV como no YouTube e outros canais, inclusive por aqueles especializados em hóquei. Ainda é considerado por muitos como “esporte de macho” embora tenha se tornado mais diversificado nos últimos anos. E alguns destes programas, embora inicialmente com o intuito de dar sua opinião sobre como retratam o esporte, chegam a chamar os episódios de sexy, excitantes, e até românticos. Como seria possível dado o quanto hóquei era considerado homofóbico há uns poucos anos atrás? A resposta parece ser como os personagens se comportam: estrelas esportivas, que viveram naquele ambiente excessivamente masculino, e se comportam como tal.

Sim, há beijos e sexo, alguns diriam muito sexo, mas não há nada de camp ou com uma sensitividade que teria tons mais femininos. Isso sem contar Kip, que dos quatro principais seria o personagem mais “normal”. Ele não é famoso, não tem de se comportar do jeito que se espera de um jogador de um esporte de contato até um tanto violento. E também é o que conhece bares e boates gay e se sente mais à vontade no meio.

Mas…
Entretanto, se considerarmos as duas histórias, isso talvez tenha levado as leitoras dos livros, e depois as da serie, a se identificarem com um (ou mais) dos personagens que se apaixona por um homem. Elas conseguem se ver na posição de qualquer um dos envolvidos. E os anseios e desejos que torturam os personagens pela maior parte do tempo também seria algo que fica fácil de se identificar, mesmo em relacionamentos heterossexuais. Quem não teve ainda um relacionamento que precisava ser um segredo por um período? As emoções, os sentimentos, tudo se transfere para outros gêneros em outras situações. E aí está o sucesso: os mais variados tipos de pessoas, mesmo os menos tolerantes, conseguem ver a história como um romance entre duas pessoas.

E no final…
Assista assim que puder, e volte a assistir outras vezes. Rivalidade Ardente é muito bem feita (uma das notas mais altas no IMDB) com belas cenas, incrível interpretação e uma direção no ponto. Você vai querer ver de novo para captar novas nuances, novos ângulos, reconsiderar como sentiu os personagens. Enfim, você não vai querer deixá-los enquanto espera pela segunda temporada.










































