Venho tendo experiências bem diferentes com relação a adaptações de livros ou de games para o cinema. Às vezes é muito difícil para muitos entenderem que são linguagens muito diferentes. Quando critiquei (falei mal mesmo) do filme Terror em Silent Hill, me chamaram de burra porque não entendia a profundidade do jogo. Bem, não entendo mesmo, visto que nunca joguei, rsrs. Estava fazendo a crítica do filme. E agora, vi algumas poucas críticas de O Morro dos Ventos Uivantes, que estreia nos cinemas nessa quinta, acabando com o filme.

O principal argumento que li é que Emerald Fennell só adaptou uma parte do filme, e que cortou vários personagens , e que Jacob Elordi era claro demais para o papel de Heathcliff. Tudo isso é muito raso, em minha humilde opinião. Mais para frente direi o porquê de pensar assim. Só aviso que já sei que mais uma vez vou ser crucificada, mas aí vai: O Morro dos Ventos Uivantes já está na minha lista de melhores filmes do ano.

A história
O filme já começa enganando apenas com sons que levam a pensar que se trata de uma situação, quando se trata de outra bem diferente (#semspoilers). Ali temos o primeiro vislumbre do garoto Heathcliff. Ele mesmo será “adquirido” por um senhor de terras, que o levará para casa para ajudar no dia a dia (quase um escravo que dorme em um celeiro frio). O senhor tem uma filha um pouco mais velha que Heathcliff, Cathy. Os dois, com aproximadamente 11 anos, desenvolvem um relacionamento de clara dependência, como se fossem os únicos salvadores de uma ambiente inóspito.

O tempo passa, eles se tornam adultos, e desenvolvem um amor profundo e avassalador que transcende a moralidade. Só que Catherine acaba decidindo se casar com o nobre Edgar Linton, em busca de um futuro melhor, o que faz Heathcliff fugir. Anos depois, ele retorna, agora rico e implacável e ainda totalmente apaixonado. Mas vai dedicar sua vida a vingar-se das famílias Earnshaw e Linton, que o humilharam no passado.
O que achei?
Na minha opinião, Emerald Fennell, roteirista e diretora, tem aqui seu melhor filme. Ela conta a história de uma amor obsessivo, que nenhum dos dois consegue evitar por mais que desejem. E isso sempre traz a destruição. Ou seja, o mesmo ponto do livro. Ao adaptar somente uma parte do livro (exatamente como o filme clássico de 1939), Emerald consegue apresentar esse amor em detalhes que só seria possível numa série de pelo menos três temporadas se fosse adaptar o livro inteiro, com todos os seus personagens . Isso chamamos de recorte de uma adaptação.

E ela faz isso com grandiosidade, e muita beleza (a fotografia e a direção de arte são absurdamente lindas). Perceba o uso dos vermelhos e verdes em cada cena. E ainda a luz que emana do cinza da casa de Cathy e compare com o look Bridgerton da casa de Linton. E é preciso falar da sensualidade sempre presente. Há uma cena em que Heathcliff levanta Cathy com apenas três dedos pelos detalhes de seu vestido. Impossível não perceber vários suspiros na sala de cinema nesse momento.
Emerald convence a todos nós dessa paixão enlouquecida de ambos os lados. E ainda nos mostra a inveja, a raiva, a submissão de vários personagens em diversos momentos. O envolvimento é completo. Li em alguns lugares que o filme pareceria um soft porn . Mas fique avisado que se vê muito pouco dos corpos de ambos. Tudo é sugestão – e por isso mesmo até mais sensual.

O casal
Há o argumento de que Margot Robbie já teria passado da idade para ser Cathy. Ela é uma grande atriz e em momento algum a diferença de uns poucos anos dela para Jacob Elordi faz a menor diferença no filme. E não só isso, é extremamente fácil entender o desespero/paixão/amor de Heathcliff por Cathy desde o momento em que eram crianças. Aliás, fica aqui o elogio para os dois atores infantis: Charlotte Mellington e Owen Cooper (sim, o menino de Adolescência, provando mais uma vez que é sensacional). Eles conseguem demonstrar desde o primeiro momento que Heathcliff e Cathy são almas gêmeas.

E isso só continua com Jacob Elordi e Margot Robbie. Os dois são tão lindos, e conseguem passar a paixão de forma definitiva e destruidora. Eles tem grande química – e isso foi usado para a divulgação do filme. E o povo ficou achando que já estavam tendo um caso – não, gente, é só marketing. As cenas entre ambos são envolventes e perfeitas.

As cores de Heathcliff
No livro, Heathcliff é descrito como um cigano, de pele mais escura. Isso pode querer dizer que ele não era louro de olhos azuis como todos do local , não é mesmo? De qualquer maneira, a escolha de Jacob Elordi se mostrou perfeita e eficiente para o papel de Heatcliff. Falar sobre Margot Robbie é “chover no molhado” – ela é sempre sensacional. E há ainda Hong Chau (de A Baleia), que faz perfeitamente uma Nelly dissimulada e invejosa. Shazad Latif faz o nobre Linton de uma maneira muito mais doce e fraca do que eu me lembrava do personagem. E com tudo isso, Emerald Fennell faz um filme atual, inclusivo, belíssimo, e apaixonante. Tenho certeza que quem for assistir sem pré-conceitos vai se apaixonar por por essa história.









































